sábado, 3 de janeiro de 2009

A revista francesa Cahiers du Cinéma, considerada a mais importante publicação de crítica de cinema do mundo, lança este mês um livro com os 100 filmes que não podem faltar em uma cinemateca ideal. Para isso, consultou 76 cineastas, historiadores e críticos da França.

A lista não deixa de ser respeitável, mas vem sendo criticada pelo classicismo (há apenas três longas dos últimos 20 anos, Van Gogh, Fale com Ela e Cidade dos Sonhos). De qualquer forma, 100 Films pour une Cinémathèque Idéale é um guia recomendadíssimo para quem está tomando contato com os clássicos.

Confira os 100 escolhidos:

  • Cidadão Kane (1941) - Orson Welles
  • O Mensageiro do Diabo (1955) - Charles Laughton
  • A Regra do Jogo (1939) - Jean Renoir
  • Aurora (1927) - Friedrich Wilhelm Murnau
  • O Atalante (1934) - Jean Vigo
  • M, o Vampiro de Dusseldorf (1931) - Fritz Lang
  • Cantando na Chuva (1952) - Stanley Donen & Gene Kelly
  • Um Corpo que Cai (1958) - Alfred Hitchcock
  • O Boulevard do Crime (1945) - Marcel Carné
  • Rastro de Ódio (1956) - John Ford
  • Ouro e Maldição (1924) - Erich von Stroheim
  • Rio Bravo - Onde Começa o Inferno (1959) - Howard Hawks
  • Ser ou Não Ser (1942) - Ernst Lubitsch
  • Era uma Vez em Tóquio (1953) - Yasujiro Ozu
  • O Desprezo (1963) - Jean-Luc Godard
  • Contos da Lua Vaga (1953) - Kenji Mizoguchi
  • Luzes da Cidade (1931) - Charlie Chaplin
  • A General (1927) - Buster Keaton
  • Nosferatu (1922) - Friedrich Wilhelm Murnau
  • A Sala de Música (1958) - Satyajit Ray
  • Monstros (1932) - Tod Browning
  • Johnny Guitar (1954) - Nicholas Ray
  • A Mãe e a Puta (1973) - Jean Eustache
  • O Grande Ditador (1940) - Charlie Chaplin
  • O Leopardo (1963) - Luchino Visconti
  • Hiroshima, Meu Amor (1959) - Alain Resnais
  • A Caixa de Pandora (1929) - Georg Wilhelm Pabst
  • Intriga Internacional (1959) - Alfred Hitchcock
  • O Batedor de Carteiras (1959) - Robert Bresson
  • Amores de Apache (1952) - Jacques Becker
  • A Condessa Descalça (1954) - Joseph Mankiewicz
  • O Tesouro do Barba Rubra (1955) - Fritz Lang
  • Desejos Proibidos (1953) - Max Ophüls
  • O Prazer (1952) - Max Ophüls
  • O Franco Atirador (1978) - Michael Cimino
  • A Aventura (1960) - Michelangelo Antonioni
  • O Encouraçado Potemkin (1925) - Sergei M. Eisenstein
  • Interlúdio (1946) - Alfred Hitchcock
  • Ivan, o Terrível (1944) - Sergei M. Eisenstein
  • O Poderoso Chefão (1972) - Francis Ford Coppola
  • A Marca da Maldade (1958) - Orson Welles
  • Vento e Areia (1928) - Victor Sjöström
  • 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) - Stanley Kubrick
  • Fanny e Alexander (1982) - Ingmar Bergman
  • A Turba (1928) - King Vidor
  • 8 1/2 (1963) - Federico Fellini
  • Sel Sol (1962) - Chris Marker
  • O Demônio das Onze Horas (1965) - Jean-Luc Godard
  • O Romance de um Trapaceiro (1936) - Sacha Guitry
  • Amarcord (1973) - Federico Fellini
  • A Bela e a Fera (1946) - Jean Cocteau
  • Quanto mais Quente Melhor (1959) - Billy Wilder
  • Deus Sabe quanto Amei (1958) - Vincente Minnelli
  • Gertrud (1964) - Carl Theodor Dreyer
  • King Kong (1933) - Ernst Shoedsack & Merian J. Cooper
  • Laura (1944) - Otto Preminger
  • Os Sete Samurais (1954) - Akira Kurosawa
  • Os Incompreendidos (1959) - François Truffaut
  • A Doce Vida (1960) - Federico Fellini
  • Os Vivos e os Mortos (1987) - John Huston
  • Ladrão de Alcova (1932) - Ernst Lubitsch
  • A Felicidade não se Compra (1946) - Frank Capra
  • Monsieur Verdoux (1947) - Charlie Chaplin
  • O Martírio de Joana d'Arc (1928) - Carl Theodor Dreyer
  • Acossado (1960) - Jean-Luc Godard
  • Apocalypse Now (1979) - Francis Ford Coppola
  • Barry Lyndon (1975) - Stanley Kubrick
  • A Grande Ilusão (1937) - Jean Renoir
  • Intolerância (1916) - David Wark Griffith
  • Partie de Campagne (1936) - Jean Renoir
  • Playtime (1967) - Jacques Tati
  • Roma, Cidade Aberta (1945) - Roberto Rossellini
  • Sedução da Carne (1954) - Luchino Visconti
  • Tempos Modernos (1936) - Charlie Chaplin
  • Van Gogh (1991) - Maurice Pialat
  • Tarde Demais para Esquecer (1957) - Leo McCarey
  • Andrei Rublev - O Artista Maldito (1969) - Andrei Tarkovsky
  • A Imperatriz Galante (1934) - Joseph von Sternberg
  • Intendente Sansho (1954) - Kenji Mizoguchi
  • Fale com Ela (2002) - Pedro Almodóvar
  • Um Convidado bem Trapalhão (1968) - Blake Edwards
  • Tabu (1930) - Friedrich Wilhelm Murnau
  • A Roda da Fortuna (1953) - Vincente Minnelli
  • Nasce uma Estrela (1954) - George Cukor
  • As Férias do Sr. Hulot (1953) - Jacques Tati
  • A Terra do Sonho Distante (1963) - Elia Kazan
  • O Alucinado (1953) - Luis Buñuel
  • A Morte num Beijo (1955) - Robert Aldrich
  • Era uma Vez na América (1984) - Sergio Leone
  • Trágico Amanhecer (1939) - Marcel Carné
  • Carta de uma Desconhecida (1948) - Max Ophüls
  • Lola, a Flor Proibida (1961) - Jacques Demy
  • Manhattan (1979) - Woody Allen
  • Cidade dos Sonhos (2001) - David Lynch
  • Minha Noite com Ela (1969) - Eric Rohmer
  • Noite e Neblina (1955) - Alain Resnais
  • Em Busca do Ouro (1925) - Charlie Chaplin
  • Scarface - A Vergonha de uma Nação (1932) - Howard Hawks
  • Ladrões de Bicicletas (1948) - Vittorio de Sica
  • Napoleão (1927) - Abel Gance
Fonte: www.omelete.com.br


Eu procurei assistir a alguns destes filmes e para isso utilizei a maior cinemateca ao meu alcance no momento (agradecimentos ao tio Álvaro e seus mais de 500 títulos até agora).
Posso dizer que me surpreendi com alguns deles, notadamente os de Chaplin. Primeiro por serem dos mais antigos da lista (um deles, inclusive, é mais velho que minha querida avó! Um beijo pra "Dona Zinha"). Segundo porque são mais divertidos do que eu esperava, além do estímulo à imaginação que o filme mudo proporciona.
Enfim, a lista pode não ser uma unanimidade mas seu valor é inquestionável, além de ser excelente para quem quiser aproveitar bons momentos sob os cobertores nos dias frios e chuvosos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O Buffet

Compartilho um texto do Luiz Fernando Veríssimo, que quase me matou de tanto rir.


O buffet

Um dos martírios da vida social moderna é o buffet. Ele nasceu com boas intenções, como resposta à necessidade de alimentar da maneira mais prática o maior número de pessoas com o máximo de elegância possível. Isto é, sem que a festa pareça um rififi no refeitório. È difícil servir 300 ou 400 pessoas nas suas mesas e ao mesmo tempo, à francesa, a não ser que haja quase tantos garçons quanto convidados. A solução, já que a comida não pode ir às pessoas, é as pessoas irem à comida. Outra vantagem do buffet é que, com todos os pratos concentrados sobre uma única e bem ornamentada mesa, ele dá a correta impressão de abundância. Que é, afinal, o que nos leva a festas. Todo buffet é uma alegoria à fartura. Há cascatas de camarões, leitões esquartejados e remontados sobre pedestais de farofa, everestes de maionese, continentes de saladas e de frios. Uma vez, juro, vi um faisão empalhado no centro da mesa, na pose de quem se preparava para decolar deste insensato mundo. Só o que o mantinha na terra era a sua própria carne, em fatias, a seus pés. Diante de um buffet você deve se debater entre dois sentimentos: a vontade de comer tudo e o remorso em estragar a arquitetura. Depois, é claro, de agradecer à providência por pertencer aos 30% da população que comem e à minoria ainda menor que é convidada a buffets. Pois o buffet também é a apoteose da boca-livre.
. Os críticos mais moderados do buffet o comparam a uma linha de montagem, e fazem uma injustiça. A linha de montagem é mais organizada. Ao redor de uma mesa de buffet o ser humano reverte ao seu protótipo mais primitivo: a fera diante do alimento. A pátina de civilização se quebra, como o exterior caramelado do presunto, e é cada um por si e pelo seu estômago. Já vi velhos amigos duelarem a empurrões diante de um rosbife, e marido e mulher chegarem aos tapas na disputa do último camarão. Porque a verdade é que o buffet não dá certo. Ele pressupõe um desprendimento em relação à comida que ninguém tem. Embora alguns finjam que tem.
- Vou esperar que os selvagens se sirvam e depois vou até lá - diz ele, sorrindo com desprezo para a horda em volta da mesa.
- Eu, se fosse você, não esperava. O bolo de peixe já estava pela metade - avisa alguém.
- Epa - diz ele, e mergulha no meio da horda, usando os cotovelos para abrir caminho.
Mas o buffet é irreversível e o negócio é aprender a conviver com ele. Existem algumas regras de conduta que nos ajudam a sair de um buffet, mesmo o mais concorrido, razoavelmente bem alimentados e sem danos, fora alguns rasgões na roupa. Aprendi com a experiência e tenho as marcas de garfo na mão para provar. Tome nota.
Antes de mais nada, não obedeça ordens. É comum o anfitrião sugerir, bem-humorado, alguma espécie de hierarquia no acesso ao buffet. Primeiro as mesas deste lado ou daquele, primeiro os mais velhos, as autoridades, os mutilados de guerra etc. Ignore-o. Seja o primeiro a saltar da mesa, mesmo fora de ordem. O máximo que pode acontecer é você receber olhares feios. O que importa isso diante de uma cascata de camarões ainda intocada e da oportunidade de escolher os melhores tomates? Nunca desmereça as vantagens de chegar primeiro.
Estude o terreno - O planejamento é importantíssimo. Ao entrar na festa, examine cuidadosamente o buffet. Resista a tentação de começar a botar camarões no bolso. Isso é apenas um reconhecimento.
Decore a localização dos pratos mais importantes.
Geralmente, há 17 tipos diferentes de salada de batata. Concentre-se numa para não perder tempo depois.
Faça uma anotação mental do melhor acesso à lagosta, se houver. Lembre-se que dois ou três pedaços de lagosta valem uma travessa de peito de peru em qualquer mercado de valores do mundo. Decida-se por uma estratégia de ataque. Se preciso, estude uma ação diversionista. Na hora de avançar, dirija-se resolutamente para os embutidos e, à última hora, desvie rapidamente para a lagosta, confundindo o inimigo.
Macetes - Com o tempo, você os desenvolverá sozinho. Cada um tem seu estilo. Alguns lembretes, no entanto. Se possível, sirva-se com dois pratos, com o pretexto de que está servindo a sua mulherzinha, ou seu maridinho, também. Se você realmente está com sua mulher ou seu marido, melhor. Ela ou ele pode fazer o mesmo e dizer que está servindo você. O trabalho em equipe é importante desde que se combine previamente quem ficará com todos os camarões. Atenção: jamais use a colherzinha que está junto ao pote para servir o caviar se houver uma colher de sopa à mão.
Seja impiedoso - Está bem, ninguém quer ser imoral, mas estamos falando de comida! Se a pessoa à sua frente não se mexe e impede seu acesso aos mexilhões, que desaparecem rapidamente, use o cabo do garfo discretamente entre a última e a penúltima costela. Se não der certo, use a ponta do garfo. Espalhe o boato de que o leitão no centro é de plástico e só está ali como enfeite. Finja que vai verificar e apalpe todo o leitão com as mãos. Diga coisas como: "Ninguém se mova, acho que caiu uma mosca na vitela tonê". Pegue todo o prato, dando a entender que vai despejá-lo pela janela. Espirre, distraidamente, em cima dos cogumelos.
Use coação - Geralmente há um garçom servindo o prato quente. Provavelmente estrogonofe. É comum o garçom carregar no arroz para poupar o estrogonofe. Ao apresentar seu prato, encare-o e diga, com o olhar: "Eu conheço a sua laia, patife. Se me sonegar o estrogonofe, enfiarei a sua cabeça no molho vinagrete até que você morra". Despeça-se dele dando a entender que voltará em breve e ai dele se disser qualquer coisa como "você por aqui de novo?" No caso de você e outro convidado espetarem o último pedaço de matambre ao mesmo tempo, sorria enquanto lhe aplica um pontapé. É incrível o que se consegue com um sorriso.
Você conseguiu e já está saboreando o prato quente enquanto outros, menos empreendedores, ainda nem chegaram perto dos tomates. Não se desmobilize, no entanto. Lembre-se de que ainda falta a batalha dos doces.

quinta-feira, 13 de março de 2008